Dois deputados da base bolsonarista deram acesso ao congresso para terroristas presos pela tentativa de atentado no aeroporto de Brasília

Dois dos terroristas presos pela tentativa fracassada de um atentado nas imediações do aeroporto de Brasília na véspera de natal estiveram em gabinetes parlamentares na câmara dos deputados. As visitas foram em datas próximas ao ato frustrado.
De acordo com informações obtidas via Lei de Acesso à Informação (LAI), George Washington de Oliveira Sousa informou na recepção que iria ao gabinete 334, do deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), em 23 de novembro de 2022, às 12h04 e obteve autorização.

Seu cúmplice no plano, Alan Diego dos Santos Rodrigues, esteve na câmara por duas vezes no mês de dezembro do ano passado. No dia 6, às 14h34, informou que iria no anexo IV. A resposta ao pedido de LAI informa que a direção comunicada pelo terrorista na portaria foi a “liderança do Podemos”. Que desde 9 de fevereiro de 2021 é ocupada pelo deputado Igor Timo (MG).

No dia seguinte, 7 de dezembro, Alan Rodrigues voltou ao prédio. Dessa vez, a informação é de que esteve no auditório Nereu Ramos, com entrada às 10h38, mas não está informado quem autorizou a entrada.
Alvorada registra a entrada de um “Alan Rodrigues” no dia 27 de julho de 2022 mas não é possível até aqui dizer se foi o terrorista ou se é homônimo
Em 30 de novembro, nesse caso já noticiado em diversas reportagens, os dois estiveram juntos, com entrada então pelo prédio do senado. Na ocasião, a identificação foi possível porque foram filmados em uma audiência pública realizada no próprio senado, que discutia denúncias falsas feitas pelo ainda presidente Jair Bolsonaro, em que acusava rádios do país de falta de isonomia nas inserções de propaganda durante as eleições.
Os registros de entrada do Palácio da Alvorada marcam ingresso de homem com o nome de “Alan Rodrigues” no dia 27 de julho de 2022, mas não é possível precisar se é Alan Diego dos Santos Rodrigues, porque a resposta da LAI não vem com identificação do documento utilizado para acesso.
A reportagem também solicitou LAI com registros de entrada na câmara do terceiro envolvido no planejamento dos atentados, Wellington Macedo de Souza. O pedido ainda não foi respondido. Mas ao contrário de “Alan Rodrigues”, que não se pode confirmar até aqui ser o terrorista, é possível cravar que Wellington Macedo de Souza visitou a então residência de Bolsonaro. No último dia 18, mostramos na Agência Sportlight de Jornalismo que Wellington Macedo esteve no Alvorada por duas vezes em 2021. No dia 14 de abril, entrou às 7h24 e saiu duas horas depois, às 9h26. Um mês depois, em 11 de maio, passou um longo tempo. Os registros de entrada e saída do palácio nos anos Bolsonaro, obtidos pela reportagem também via LAI, dão conta de que o golpista entrou às 7h43 e saiu somente no meio da tarde, às 15h53.
Wellington Macedo chegou a trabalhar no então ministério da mulher, da família e dos direitos humanos, comandado pela agora senadora Damares Alves, como assessor da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, entre os meses de fevereiro a outubro de 2019.
TERRORISTAS JÁ ESTAVAM ACAMPADOS QUANDO FORAM AOS GABINETES DE JOAQUIM PASSARINHO E IGOR TIMO
A revelação dos gabinetes informados pelos terroristas como destino no congresso pode abreviar a investigação em curso realizada pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). No dia 26 de dezembro, o líder do governo no senado pediu ao presidente da casa, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), informações sobre a presença dos agora presos no congresso. O pedido se referia a audiência pública do dia 30 de novembro. A solicitação também pedia esclarecimentos sobre eventual presença de ambos em algum gabinete após a reunião.
“O congresso nacional, em hipótese alguma, pode ser abrigo para terroristas. Isso é um absurdo sem precedentes. Precisamos dar uma resposta ao povo e mostrar que a casa de leis não é conivente, de forma alguma, com esses criminosos”, afirmou o senador na ocasião.
A presença de ambos circulando nas dependências do congresso, indo a gabinetes e audiências, tanto na câmara dos deputados como no senado, além da presença do terceiro com portão do palácio presidencial franqueado, demonstra e confirma o nível de articulação dos terroristas junto aos políticos ligados a Jair Bolsonaro e ao próprio, além da cumplicidade de militares com os acampamentos montados em frente aos quarteis do exército, transformados em incubadoras terroristas.
Os terroristas já estavam acampados em frente ao QG do exército em Brasília por ocasião da ida aos gabinetes dos deputados.
De acordo com depoimento de Alan Diego na polícia civil do Distrito Federal após a prisão, conversas sobre explosões sempre ocorriam no acampamento, e que “ação seria uma solução para uma possível intervenção militar”.
No depoimento, Alan Diego afirmou que os explosivos vieram do Pará encomendados por George Washington e que este teria fabricado os artefatos. Disse ainda que George contou ter feito cursos em Brasília para aprender a fabricar artefatos explosivos.
Afirmou ainda no depoimento que entre 3h e 4h da véspera do natal passou lentamente perto do caminhão-tanque que estava estacionado na via próxima ao aeroporto e colocou a caixa na parte traseira do caminhão.
De acordo com a resposta da LAI, não é possível ter o acompanhamento do visitante nas dependências da câmara depois que ele informa o destino e tem a liberação de entrada pelo gabinete.
Sempre pelo Pará, Joaquim Passarinho foi vice-líder do governo Bolsonaro na câmara. Depois de deixar o PSD, filiou-se ao PL, partido do ex-presidente, em 22 de março de 2022 com assinatura do próprio Bolsonaro em cerimônia especial. Em diversas ocasiões, acompanhou o mandatário em viagens. Sobrinho do ex-senador e ex-governador do Pará, Jarbas Passarinho, quadro expoente na ditadura militar, está no terceiro mandato federal depois de dois como estadual e quatro como vereador, além de ter sido secretário estadual de obras. Na campanha presidencial, reafirmou seu apoio ao candidato Bolsonaro por ser necessário, segundo ele, “continuar a mudança, com o combate à corrupção e resgatando valores como família e fé”.

Reeleito para a próxima legislatura, o líder do Podemos na câmara foi veemente defensor de Bolsonaro no plenário durante o governo. Superior inclusive a do próprio partido, base bolsonarista, com alinhamento de 84% com as pautas do antigo governo, enquanto a média de seu partido foi de 78%. Mesmo quando Sérgio Moro foi candidato do Podemos ao governo, ignorou a candidatura e seguiu apoiando Bolsonaro. Suas falas e postagens se notabilizaram pelos elogios desmedidos a Jair Bolsonaro e pelo discurso de “deus, pátria e família”.

De mandato discreto, sua passagem mais notória foi em 15 de setembro de 2021, quando, sem perceber que o microfone do plenário estava aberto, chamou o presidente da câmara, Arthur Lira, de “filho da puta”. No dia seguinte usou as redes para se desculpar.
Como relator de duas representações contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) por declarações a favor de um “novo AI-5”, agiu fortemente para blindar o parlamentar e votou em ambas contra a continuidade do processo no conselho de ética da câmara. Segundo o congressista, por “ausência de justa causa”. Em diversas vezes integrou a comitiva presidencial.
OUTRO LADO:
Joaquim Passarinho:
A reportagem enviou pedido de resposta ao deputado, sem retorno. Caso a demanda seja respondida, será atualizado aqui.
Igor Timo:
A reportagem enviou pedido de resposta ao deputado, sem retorno. Caso a demanda seja respondida, será atualizado aqui.