{"id":1132,"date":"2017-07-27T04:18:50","date_gmt":"2017-07-27T07:18:50","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciasportlight.com.br\/?p=1132"},"modified":"2017-07-27T04:20:45","modified_gmt":"2017-07-27T07:20:45","slug":"o-professor-de-histeria-e-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/07\/27\/o-professor-de-histeria-e-a-historia\/","title":{"rendered":"O professor de histeria e a Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>[dropcap]N[\/dropcap]\u00e3o ligava o nome \u00e0 pessoa.<\/p>\n<p>Embora tenha travado razo\u00e1vel contato com a maior parte da bibliografia\u00a0dos grandes historiadores do Brasil nos quatro anos dos bancos escolares da saudosa faculdade de Hist\u00f3ria, passei inc\u00f3lume pelo tal\u00a0Marco Ant\u00f4nio Villa.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro de nenhuma ida ali na sinuca, pedir pro Renato, respons\u00e1vel pela xerox (acho que hoje com a internet a pirataria mudou de forma!), e pedir: \u201cv\u00ea pra mim o texto do Villa\u201d.<\/p>\n<p>Fui ouvir ontem, ao saber que ele andou se agarrando a sempre mais f\u00e1cil forma de tentar um pouco de luz para quem n\u00e3o tem nenhuma produ\u00e7\u00e3o relevante no curr\u00edculo: pegar carona no brilho\u00a0de um terceiro para tentar algum holofote. No caso, o jornalista\u00a0Juca Kfouri. E, pelo que leio, podia ter ficado sem essa. Jogou conversa fora, inventou e, confrontado pessoalmente, cacarejou.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso falar sobre\u00a0Juca. A trajet\u00f3ria, a hist\u00f3ria e o curr\u00edculo falam por ele. Nem o caso precisa de repercuss\u00e3o ou solidariedade. O que me traz aqui \u00e9 outra raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 que tive a curiosidade\u00a0em saber quem era o tal &#8220;historiador&#8221;, cujo nome, como disse, jamais tinha ouvido no velho Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais, o IFCS, do Largo de S\u00e3o Francisco. O que por si s\u00f3 era muito estranho, porque n\u00e3o se passa em branco durante uma forma\u00e7\u00e3o de historiador por algu\u00e9m com produ\u00e7\u00e3o minimamente relevante. (tem alguns contempor\u00e2neos ifcsianos que andam virtualmente por aqui pela Ag\u00eancia Sportlight, como o Simas, o Almeidinha e tantos outros. Se lembrarem de algum texto recomendado de tal autor e eu tiver sendo injusto, me avisem).<\/p>\n<p>E eis que me deparo com coisas absolutamente estarrecedoras. Que provavelmente expliquem a irrelev\u00e2ncia do mesmo na produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica brasileira. Que explicam a irrelev\u00e2ncia do mesmo.<\/p>\n<p>Pois descubro que o tal Villa escreveu um texto na Folha (\u201cDitadura \u00e0 brasileira) no qual, pasmem, argumenta que a ditadura brasileira s\u00f3 existiu entre 1968 e 1979 e n\u00e3o como classicamente se fala, entre 1964\/1985. Em seus argumentos, diz que o per\u00edodo entre 1964 e 1968 n\u00e3o pode ser assim classificado. Com o AI-5, em 68, quando a\u00ed sim come\u00e7aria a ditadura, segundo ele. Como sempre pode piorar, descubro que tal ideia virou um livro com o mesmo t\u00edtulo do artigo.<\/p>\n<p>Descubro mais, e algo que me deixa absolutamente perplexo: na grava\u00e7\u00e3o de um programa de TV, assente que a \u201ctortura s\u00f3 teria come\u00e7ado em 1968\u201d, p\u00f3s-AI-5.<\/p>\n<p>Carlos Fico, este sim historiador com produ\u00e7\u00e3o reconhecida e respeitada no mundo inteiro e considerado unanimemente como um dos grandes especialistas sobre o per\u00edodo, qui\u00e7\u00e1 o maior, n\u00e3o tem d\u00favidas em apontar em sua produ\u00e7\u00e3o ou entrevistas: &#8220;Os primeiros anos do Castelo foram mais brandos mas j\u00e1 havia tortura&#8221;.<\/p>\n<p>Confesso que aqui tenho d\u00favidas. Se o sujeito que nega ditadura e\u00a0tortura no Brasil entre 64 e 68\u00a0realmente desconhece os fatos ou se \u00e9 simplesmente um negacionista.<\/p>\n<p>O segundo caso preocupa muito mais. Algu\u00e9m que desconhece os fatos \u00e9 provavelmente apenas um mero desconhecedor de fatos, um apedeuta cl\u00e1ssico. Usado aqui e acol\u00e1 em entrevistas e programas de TV quando conv\u00e9m a estes para ilustrar narrativas que v\u00e3o ao encontro do que pretendem passar.<\/p>\n<p>J\u00e1 o negacionista \u00e9 um tipo muito mais perigoso. \u00c9 algu\u00e9m que \u00e9 c\u00famplice do horror. Algu\u00e9m que \u00e9 c\u00famplice de perpetuar a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Em outros lugares, aponta-se para tal tipo de negacionistas e negacionismos com a devida \u00eanfase que merecem. Para que n\u00e3o possam dar tintas mornas para os genoc\u00eddios, para que tais coisas sejam tratadas como tal. Evitando-se assim que se repitam, se perpetuem.<\/p>\n<p>[pullquote-left]Como entender um &#8220;historiador&#8221; negar a ditadura logo ap\u00f3s o primeiro dia do golpe de 1964?[\/pullquote-left]<\/p>\n<p>Em tais lugares, essas figuras s\u00e3o expostas em sua vilania ao serem c\u00famplices do holocausto. Ao serem s\u00f3cios do horror.<\/p>\n<p>Por aqui, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, muitos n\u00e3o conseguem estabelecer a conex\u00e3o de que a nega\u00e7\u00e3o da tortura dos anos de chumbo, de que a n\u00e3o puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis, \u00e9 massa de fermento para o genoc\u00eddio di\u00e1rio de pretos e pobres de nossas cidades. De que a nega\u00e7\u00e3o daquele horror responde pela perpetua\u00e7\u00e3o dele em outras formas.<\/p>\n<p>Como entender um historiador negar a ditadura logo ap\u00f3s o primeiro dia do golpe de 1964? Est\u00e1 l\u00e1, no Ato Institucional 1 (AI-1), de 9 de abril de 1964, portanto alguns dias depois do golpe, a ditadura configurada e expressa\u00a0em todas as letras, o princ\u00edpio da soberania popular afastado pela mano dura e fora da lei, a constitui\u00e7\u00e3o rasgada desde o primeiro momento e trocada pela ditadura: \u201c<em>A revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa se investe no exerc\u00edcio do Poder Constituinte. Este se manifesta pela elei\u00e7\u00e3o popular ou pela revolu\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma.\u201d Nota: o que chamavam de \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 s\u00f3 mesmo o golpe de 64, da mesma forma que o que alguns chamam de \u201cimpeachment\u201d \u00e9 tamb\u00e9m s\u00f3 um golpe mesmo.<\/em><\/p>\n<p>Seguindo: o dia seguinte ao golpe de 64, j\u00e1 era a ditadura escancarada. Come\u00e7ou ali a persegui\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as populares, assim como a persegui\u00e7\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais. Menos de 24 horas depois do AI-1, vieram 102 cassa\u00e7\u00f5es, direitos pol\u00edticos suspensos por 10 anos, entre essas 41 deputados federais, como Leonel Brizola, Jango,\u00a0Arraes, Rubens Paiva, Pl\u00ednio de Arruda Sampaio, Celso Furtado, o embaixador Josu\u00e9 de Castro, Darcy Ribeiro, Nelson Werneck Sodr\u00e9, entre tantos.<\/p>\n<p>Muitos outros exemplos poderia ser citados do que era a ditadura p\u00f3s-golpe de 64. S\u00e3o bem conhecidos. Fiquemos apenas na Lei de Seguran\u00e7a Nacional, de 3 de mar\u00e7o de 1967, portanto tamb\u00e9m antes do que o tal Villa considera o in\u00edcio da ditadura.<\/p>\n<p>Quanto a tortura, a cl\u00e1ssica foto que ilustra essa p\u00e1gina, do imenso Greg\u00f3rio Bezerra, deveria falar por ela mesmo. Mas ela n\u00e3o fala. Ela grita.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio \u00e9 por demais conhecido. Preso imediatamente, horas ap\u00f3s o golpe de 64. Arrastado pelas ruas do Recife enquanto um militar incitava a popula\u00e7\u00e3o ao linchamento. Ainda teve os p\u00e9s imersos em solu\u00e7\u00e3o de bateria de autom\u00f3vel e depois obrigado a andar na brita. Ent\u00e3o n\u00e3o houve tortura entre 64 e 68&#8230;\u00c9 algo t\u00e3o estarrecedor&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a sistematiza\u00e7\u00e3o da tortura e todo o horror cl\u00e1ssico em grande escala que conhecemos \u00e9 p\u00f3s-AI-5, assim como a Opera\u00e7\u00e3o Condor. Mas a foto de Greg\u00f3rio \u00e9 tapa na cara definitivo que n\u00e3o devia permitir aberra\u00e7\u00f5es parecidas. N\u00e3o foi o \u00fanico. Como tantos outros casos antes de 68.<\/p>\n<p>A nega\u00e7\u00e3o da tortura \u00e9 hedionda. Assim como a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma ditadura desde suas primeiras manifesta\u00e7\u00f5es. Contra isso, sempre ser\u00e1 preciso gritar. Sobre o resto, o personagem, deixemos pra l\u00e1, n\u00e3o se fala mais nem se d\u00e1 luz a quem n\u00e3o tem. Ou como diz o Juca, \u201cn\u00e3o se briga com gamb\u00e1. Mesmo ganhando, voc\u00ea acaba ficando com o cheiro dele\u201d. Adelante. Vamos ao que e a quem interessa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[dropcap]N[\/dropcap]\u00e3o ligava o nome \u00e0 pessoa. 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