{"id":264,"date":"2017-01-03T07:00:01","date_gmt":"2017-01-03T09:00:01","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciasportlight.com.br\/?p=264"},"modified":"2017-01-03T12:26:52","modified_gmt":"2017-01-03T14:26:52","slug":"o-novo-riquismo-cafona-de-cabral-e-paes-chegou-ate-a-praia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/01\/03\/o-novo-riquismo-cafona-de-cabral-e-paes-chegou-ate-a-praia\/","title":{"rendered":"O novo-riquismo cafona de Cabral e Paes chegou at\u00e9 a praia"},"content":{"rendered":"<p>[dropcap]N[\/dropcap]ada nem ningu\u00e9m poder\u00e1 barrar o guardanapo de Cabral e sua insaci\u00e1vel turma como s\u00edmbolo de uma era cafona onde imperou o (mau) gosto emergente expresso naquela cena bizarra, nas cores e tra\u00e7os de Romero Britto e na sola vermelha do sapato da madame.<\/p>\n<p>A ostenta\u00e7\u00e3o dos novos ricos virou esculacho-ostenta\u00e7\u00e3o e foi dar em Bangu, onde a escumalha \u00e9 h\u00f3spede do estado. L\u00e1 onde a parede sua, como se diz na malandragem, em alus\u00e3o ao clima saariano do bairro da antiga f\u00e1brica de tecidos. No ver\u00e3o mais ainda.<\/p>\n<p>Tamanho deslumbramento e gosto pela bandidagem deixou de ser um simples pecadilho e virou pecado mortal, de vida ou morte, quando a cobi\u00e7a desconheceu qualquer regra, lei ou respeito ao destruir o Maracan\u00e3. Ainda falaremos muito aqui e em breve, nessa humil\u00edssima trincheira, da m\u00e3e de todos os pecados de nossos tempos: a destrui\u00e7\u00e3o do Maracan\u00e3. Por hora vamos nos ater a cafonice dos novos ricos, a inexor\u00e1vel marcha para tr\u00e1s dos tempos no rumo da barb\u00e1rie emergente de Cabral e Paes.<\/p>\n<p>Sim, o alcaide metido a bocudo, a homem sem papas na l\u00edngua, almofadinha com curso intensivo para ver se pegava duas ou tr\u00eas coisas de malandragem e do que achava ser um jeito carioca, t\u00edpico janota que vai ao samba e compra elenco de apoio para se dizer local, sambando com os dois dedinhos para cima, tamb\u00e9m n\u00e3o resistia a sua ess\u00eancia cafona e emergente de deslumbramento entre seus pares.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0212.jpg\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"268\" data-permalink=\"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/01\/03\/o-novo-riquismo-cafona-de-cabral-e-paes-chegou-ate-a-praia\/img_0212\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0212.jpg?fit=720%2C540&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"720,540\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"IMG_0212\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0212.jpg?fit=720%2C540&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-268 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0212.jpg?resize=720%2C540\" width=\"720\" height=\"540\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0212.jpg?w=720&amp;ssl=1 720w, https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0212.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sua administra\u00e7\u00e3o flertou com isso v\u00e1rias vezes. Mas como tinha ao seu lado e no bolso a maior fatia daquela que chamei aqui da \u201cimprensa de c\u00f3coras\u201d, foi passando despercebido em sua vol\u00fapia de, no fundo, transformar as coisas boas em uma grande ala vip e deixar o resto da turba no papel de carregador das cordas que isolam a turma do cercado.<\/p>\n<p>Ensaiou no carnaval, transformado por ele em um neg\u00f3cio monstruoso que, como tal, pariu obviamente um monstro, alimentado por finos contratos com cervejaria (em algum momento os termos disso ser\u00e3o revelados). Diante do monstro gerado, um secretariozinho do prefeito apontou para os culpados de sempre: \u201co problema \u00e9 que o povo n\u00e3o tem educa\u00e7\u00e3o, por isso temos problemas\u201d. Fizeram o primeiro teste, teve bloco da Preta Gil com cordas e \u00e1rea vip, fazendo arder d\u00e9cadas de hist\u00f3ria. A providencial gritaria causou o recuo estrat\u00e9gico. Mas cercaram pelos outros lados.<\/p>\n<p>E o prefeitinho foi botando os p\u00e9s e m\u00e3os na festa de Momo. Como imaginava que s\u00f3 ele era o rei no furdun\u00e7o, tinha certeza de que os outros eram os bobos da corte. E naturalmente \u00e9ramos mesmo. Subitamente rasgou elogios naquele 21 de fevereiro de 2012 para a S\u00e3o Clemente. Sua estrat\u00e9gia ia ficando mais clara: \u201cReparem a S\u00e3o Clemente. \u00c9 um exemplo de como os recursos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das escolas de samba permitem um grande carnaval. Precisa de gest\u00e3o profissional, precisa de gente s\u00e9ria. Voc\u00ea est\u00e1 vendo esta escola? Entrou um cara, um superprodutor, o Calainho, que est\u00e1 fazendo um carnaval que est\u00e1 deixando a Beija-Flor com vergonha. Ent\u00e3o, mostra que d\u00e1 para fazer muita coisa com aquilo que \u00e9 disponibilizado \u00e0s escolas. A gest\u00e3o profissional \u00e9 a transpar\u00eancia de recursos que s\u00e3o aplicados de fato no desfile\u201d, afirmou, sem pudor e respeito.<\/p>\n<p>Logo depois chegava a explica\u00e7\u00e3o (e a conta para o contribuinte) daquelas palavras inocentes sobre o produtor amigo do rei: soube-se que a prefeitura tinha pago a L21, do mesmo Calainho, pela produ\u00e7\u00e3o dos bailes da cidade, a m\u00f3dica quantia de R$ 2,950 milh\u00f5es (ah, Bangu&#8230;). Entre eles o Baile da Cidade e o Grande Baile Gay, no Jockey Club. Para entrar, R$ 100 e R$ 500 reais.<\/p>\n<p>Num arroubo t\u00edpico de quem \u00e9 da corte do rei e sabe que n\u00e3o existem limites para quem est\u00e1 \u00e0 mesa do monarca, Calainho, bafejado pela ascens\u00e3o a novo promoter da festa na cidade, deu o passo a mais que essa turma sempre d\u00e1 nessas horas. Fruto dessa falta de limite, por esse eterno se sentir acima do bem e do mal. E das leis. Sonhou alto, e rasgou em seus devaneios toda uma hist\u00f3ria de baianas, pretas-velhas, malandros, blocos de sujo, Z\u00e9 Pereiras, Pra\u00e7a XI, Rio Branco, Intendente Magalh\u00e3es, compositores e poetas, daquela turma para qual acaba tudo na quarta-feira de cinzas. Desconheceu toda uma hist\u00f3ria e tradi\u00e7\u00f5es para ver os cifr\u00f5es. E comparou o incompar\u00e1vel, aquilo que Jo\u00e3ozinho chamou de \u00f3pera de rua, para imaginar padronizado, pasteurizado e industrializado: \u201cO desfile do Rio tem condi\u00e7\u00e3o de se transformar numa franquia internacional, como \u00e9 o Cirque du Soleil\u201d. Leia de novo, ele falou isso mesmo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0033.jpg\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"267\" data-permalink=\"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/01\/03\/o-novo-riquismo-cafona-de-cabral-e-paes-chegou-ate-a-praia\/img_0033\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0033.jpg?fit=720%2C960&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"720,960\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"IMG_0033\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0033.jpg?fit=720%2C960&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-267 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0033.jpg?resize=225%2C300\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0033.jpg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0033.jpg?w=720&amp;ssl=1 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foi avan\u00e7ando o prefeitinho. Do carnaval chegou at\u00e9 a praia. Sempre seguindo o mesmo discurso pronto para seduzir os mesmos incautos de sempre: ordem e progresso. Choque de ordem. Como faltou a algumas aulas em seu intensivo de malandragem, vira e mexe derrapa. Bota as desculpas da derrapada no \u201cexcesso de carioquismo\u201d, envergonhando S\u00e3o Sebasti\u00e3o e seus devotos. Entre as aulas que faltou, o mauricinho perdeu aquela do mate em gal\u00e3o, institui\u00e7\u00e3o da cidade. E mandou ripar a turma que veste laranja nas areias. De novo a grita foi grande. Deve ter perguntado a Pedro Paulo, o fiel escudeiro, porque ele n\u00e3o passou o ponto daquela aula. E nessa rotina de testar limites e ver at\u00e9 onde podia ir, foi pra cima dos barraqueiros da areia. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que tivesse faltado logo naquela aula. Logo os barraqueiros. Que todo carioca da praia tem um como anjo da guarda. O que olha a carteira enquanto vai no mar, o chinelo, aquele que ainda deixa pagar amanh\u00e3. Que muitas vezes vira amigo, troca ideias&#8230; Com efeito&#8230; Logo essa aula no intensivo de Z\u00e9 Carioca, prefeitinho? Deu ruim na repercuss\u00e3o de novo e n\u00e3o deu pra tocar nos barraqueiros. Do contr\u00e1rio, hoje provavelmente ter\u00edamos uma sequencia de Fasanos, Geros e barracas gourmets encarapitadas na areia. Quem duvida? Nessa dire\u00e7\u00e3o, chegaram a rascunhar um \u201cBeach Club\u201d, um peda\u00e7o de areia ali no cercado de \u00e1rea militar do posto seis, onde entrava-se pagando para ouvir m\u00fasica eletr\u00f4nica e tomar champagne na praia. Novamente houve o recha\u00e7o para que o Rio jamais fosse um desfile jurereniano ou miami-beachiano de homens com gel na praia a c\u00f4t\u00e9 de turbinados silicones foi grande e n\u00e3o emplacaram.<\/p>\n<p>[pullquote-left]Antes de sair, ao apagar das luzes, deixou a perversa heran\u00e7a de quem se vestia de carioca de cursinho intensivo de dia e de noite fazia da cidade plataforma de \u201cbusiness\u201d. Sempre com os amigos do rei. Sempre na contram\u00e3o da hist\u00f3ria da cidade. Sempre com tra\u00e7os indel\u00e9veis da mais profunda cafonice e mal gosto.[\/pullquote-left]<\/p>\n<p>Mas antes de sair, ao apagar das luzes, deixou a perversa heran\u00e7a de quem se vestia de carioca de cursinho intensivo de dia e de noite fazia da cidade plataforma de \u201cbusiness\u201d. Sempre com os amigos do rei. Sempre na contram\u00e3o da hist\u00f3ria da cidade. Sempre com tra\u00e7os indel\u00e9veis da mais profunda cafonice e mal gosto.<\/p>\n<p>Foi assim que de uns meses pra c\u00e1 mudou a paisagem da praia do Leblon. No lugar do sagrado encontro nas areias, onde a cidade, ainda que com fr\u00e1geis amarras exercita alguma pluralidade e asfalto pode se encontrar com morro, plantou um medonho templo de consumo \u00e0 beira-mar. Bem no lugar onde a turma l\u00e1 do Jacar\u00e9 costuma ir, mesmo que agora tenha uma revista no \u00f4nibus durante o percurso. Um bantust\u00e3o ao contr\u00e1rio: do lado de dentro os brancos, de fora os negros, salvo aqueles que estiverem servindo. E a cena \u00e9 chocante, ostensiva, remetendo a uma \u00c1frica dos tempos de apartheid: um batalh\u00e3o de seguran\u00e7as enfileirados zelando pelos poucos privilegiados. Em plena praia. Uma aberra\u00e7\u00e3o sem precedentes na urbe, quebrando toda e qualquer tentativa de diversidade. Rumando em marcha acelerada ao s\u00e9culo XIX, para o qual s\u00f3 falta uma liteira adentrando o espa\u00e7o com alguns negros carregando a sinh\u00e1. Um desses \u201cterrit\u00f3rios exclusivos\u201d j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1. Outro se abre em poucos dias. Nos tapumes, o an\u00fancio que ofende uma tradi\u00e7\u00e3o de cidade revela o que vem por a\u00ed: \u201cBar de ostras, &#8230;lagosta&#8230;champagne..vinho branco gelado&#8230;jarras de drinks&#8230;m\u00fasica boa, areia, sol, mar e&#8230;ver\u00e3o\u201d. \u00c9 a Valmarchioriza\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Sebasti\u00e3o andando em passos largos.<\/p>\n<p>Por um momento, imaginei estar passando por Orlando ou cafonice que o valha. Jamais na S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro que aprendi a amar. De Noel, Cartola, Pixinguinha, Aldir, Monarco, Monsueto, Cacha\u00e7a, Sargento, Vin\u00edcius e tantos outros.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0032.jpg\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"266\" data-permalink=\"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/01\/03\/o-novo-riquismo-cafona-de-cabral-e-paes-chegou-ate-a-praia\/img_0032\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0032.jpg?fit=720%2C960&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"720,960\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"IMG_0032\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0032.jpg?fit=720%2C960&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-266 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0032.jpg?resize=225%2C300\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0032.jpg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_0032.jpg?w=720&amp;ssl=1 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Na era em que as principais capitais do mundo zelam pela certeza de que moderno \u00e9 a mistura, Berlim, Toronto, Nova Iorque, Paris, Londres, tentam cada dia mais liquidificar tudo, nossa caricatura de Z\u00e9 Carioca deixa de heran\u00e7a um enclave onde \u00e1gua e azeite jamais se encontrar\u00e3o. Deixando no ar a tens\u00e3o que j\u00e1 se faz presente. De um lado, a turma que atravessa o t\u00fanel e n\u00e3o pode mais se sentar para a sonhada cerveja. Dentro de parte do cercado vip, gente pagando mil reais (!) para estar no protetorado. \u00c9 isso mesmo: h\u00e1 um chiqueiro vip onde, como deu no jornal, a reserva de lugar custa mil reais de consumo. E como nunca se viu por aqui, estouram champagne na areia.<\/p>\n<p>Como todo amigo do rei sem limites, como j\u00e1 fora no Maracan\u00e3 e em outros lugares, pouco importa a paisagem. Chegaram a botar um gerador com um tanque de \u00f3leo diesel em plena cal\u00e7ada, um monstrengo impens\u00e1vel fazendo a paisagem da orla parecer uma cozinha industrial. Milhares feridos em seus direitos para o deleite de meia d\u00fazia. Ficou meses por l\u00e1, retirado apenas na semana que passou. Como sempre fazem, nessa dial\u00e9tica de testar e ver o que acontece, ver se cola, chegaram a enfiar um banheiro qu\u00edmico em pleno cal\u00e7ad\u00e3o. Tiraram para n\u00e3o chamar muito a aten\u00e7\u00e3o. Quem sabe daqui a pouco&#8230; N\u00e3o bastasse isso tudo, com a tal certeza de que podem tudo, romperam com uma tradi\u00e7\u00e3o de anos da cidade, em que ningu\u00e9m jamais combinou mas nunca se rompeu: em tempo algum, nenhum dono de quiosque ou barraqueiro ousou desrespeitar o direito individual de cada um botando caixas de som e m\u00fasica alta. Agora temos isso no tal curral vip. \u00c9 mais uma certeza da tal exclusividade, de poder tudo. Afinal, imaginem se todos resolverem fazer o mesmo? S\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o se quebram na heran\u00e7a cafona que fica. Outro fato inimagin\u00e1vel e inacredit\u00e1vel: os limites do tal lugar se ampliaram da cal\u00e7ada para o trecho de areia em frente, que tamb\u00e9m agora \u00e9 do amigo do rei. Nunca houve isso por aqui: mesas com cadeiras na areia. Tudo dominado.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil entender como n\u00e3o enxergam o qu\u00e3o gerador de tens\u00e3o para a cidade algo assim representa. O que era cidade-partida entre morro e asfalto vai se partindo tamb\u00e9m em um dos poucos lugares onde podiam se encontrar. E seguem rumando desabaladamente ao s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 gente chegada a muita literatura essa turma emergente. Se fossem, iria recomendar bravamente o imperd\u00edvel \u201cA Inven\u00e7\u00e3o de Copacabana\u201d, de Julia O\u2019Donnell. Est\u00e1 tudo ali. Para esses pobres mo\u00e7os que acreditam que promovem a modernidade, a explica\u00e7\u00e3o de como caminham para as trevas, como rumam retrocesso de dois s\u00e9culos.<\/p>\n<p>[pullquote-left]Est\u00e1 l\u00e1 o triste retrato dos \u201caristocratas do Atl\u00e2ntico Ocidental\u201d, aqueles que acreditavam que tinham mais direito ao mar e a orla porque \u201cnem todos s\u00e3o como n\u00f3s\u201d. Um retrato pungente do que \u00e9 a longa dura\u00e7\u00e3o e a perman\u00eancia dos h\u00e1bitos de um pa\u00eds em que alguns teimam em lutar para que senzala e casa grande permane\u00e7am vivas.[\/pullquote-left]<\/p>\n<p>Est\u00e1 l\u00e1 o triste retrato dos \u201caristocratas do Atl\u00e2ntico Ocidental\u201d, aqueles que acreditavam que tinham mais direito ao mar e a orla porque \u201cnem todos s\u00e3o como n\u00f3s\u201d. Um retrato pungente do que \u00e9 a longa dura\u00e7\u00e3o e a perman\u00eancia dos h\u00e1bitos de um pa\u00eds em que alguns seguem empenhados para que senzala e casa grande permane\u00e7am vivas.<\/p>\n<p>Sem muito se estender, valem brev\u00edssimos trechos da obra que relata o imagin\u00e1rio de uma elite de mais de um s\u00e9culo atr\u00e1s que teima em seguir mais vivo do que nunca. Cada palavra parece e poderia estar sendo dita por alguns hoje. \u201c&#8230;temos o direito de exigir para n\u00f3s tamb\u00e9m carinhos que n\u00e3o se prodigalizam, porque nem todos s\u00e3o como n\u00f3s\u201d. Por carinhos exigidos, entenda-se o bantust\u00e3o ao contr\u00e1rio, a garantia do apartheid \u00e0 beira-mar. No relato da autora, a descri\u00e7\u00e3o daqueles que \u201ctentavam fazer da regi\u00e3o atl\u00e2ntica a base de um projeto espec\u00edfico de distin\u00e7\u00e3o\u201d. Nesse Brasil da iminente cassa\u00e7\u00e3o de todos os direitos conquistados h\u00e1 d\u00e9cadas e que parece pronto para aprovar a revoga\u00e7\u00e3o da Lei \u00c1urea, o projeto da nova orla do alcaide que saiu ganha tons definitivos.<\/p>\n<p>Seria c\u00f4mico se n\u00e3o fosse dolorosamente tr\u00e1gico reler o trecho em que a autora conta sobre a chegada do bonde na zona sul, abrindo a possibilidade de levar o povo do sub\u00farbio at\u00e9 a praia. Qualquer semelhan\u00e7a com os relatos das tentativas atuais em se barrar a chegada dos \u00f4nibus al\u00e9m-t\u00fanel \u00e9 uma tr\u00e1gica coincid\u00eancia. Estamos falando de 1870. Mas podia ser 2017. \u201cO novo meio de transporte enfrentou a resist\u00eancia de certos setores da elite, como grupos de senhoras que condenavam a inevit\u00e1vel mistura de \u2018gente do povo\u2019 com \u2018pessoas de h\u00e1bitos educados\u201d. Meu deus! Um s\u00e9culo e meio se passou e a frase parece dita hoje&#8230;A cada ver\u00e3o em que vejo a frase do s\u00e9culo passado repetida, me assusto profundamente com essa casa grande que insiste em n\u00e3o sair de cena. Essa presen\u00e7a t\u00e3o forte da profecia de Nabuco, &#8220;a escravid\u00e3o permanecer\u00e1 por muito tempo como a caracter\u00edstica nacional&#8221;. Ser\u00e1 que isso por si s\u00f3 n\u00e3o deveria significar reflex\u00e3o profunda, a certeza de que vamos caminhando rumo ao abismo, ao fracasso?<\/p>\n<p>Nossa trag\u00e9dia cotidiana, entre tantas, \u00e9 n\u00e3o perceber o quanto n\u00e3o avan\u00e7amos, o quanto alguns, embora se arvorem em t\u00e3o civilizados e modernos, n\u00e3o s\u00e3o nada al\u00e9m do que cabe\u00e7as do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Se vale como \u00fanico consolo dessa trag\u00e9dia, \u00e9 que um j\u00e1 n\u00e3o pode botar seu guardanapo na cabe\u00e7a \u00e0 beira-mar no bantust\u00e3o que sonhou. E outros podem estar a caminho de um Bangu que tanto quiseram fora de suas vistas. Desde a virada do ano j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais foro privilegiado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ps- Uma \u00faltima palavra sobre o rei (posto), seus amigos e o bantust\u00e3o ao contr\u00e1rio: no dia da inaugura\u00e7\u00e3o, nem tem tanto tempo assim, S\u00e9rgio Cabral Filho estava l\u00e1. Brindando no tal chiqueiro-vip. Prova irrefut\u00e1vel da cafonice. Provavelmente a \u00faltima apari\u00e7\u00e3o em p\u00fablico antes de virar um h\u00f3spede do estado. H\u00e1 registro fotogr\u00e1fico da presen\u00e7a dele ali. N\u00e3o sei se chegou a usar o banheiro qu\u00edmico do cal\u00e7ad\u00e3o. Confort\u00e1vel n\u00e3o \u00e9, mas ainda assim \u00e9 melhor do que o boi de Bangu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada nem ningu\u00e9m poder\u00e1 barrar o guardanapo de Cabral e sua quadrilha como s\u00edmbolo de uma era cafona onde imperou o (mal) gosto emergente expresso naquela cena bizarra, nas cores e tra\u00e7os de Romero Britto e na sola vermelha do sapato da madame.<\/p>\n<a href=\"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/01\/03\/o-novo-riquismo-cafona-de-cabral-e-paes-chegou-ate-a-praia\/\">Leia mais -><\/a>.","protected":false},"author":1,"featured_media":265,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"nf_dc_page":"","om_disable_all_campaigns":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-264","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","post_format-post-format-image"],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p8bYvK-4g","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/308.jpg?fit=700%2C483&ssl=1","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=264"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":283,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264\/revisions\/283"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}