{"id":337,"date":"2017-01-18T07:00:12","date_gmt":"2017-01-18T09:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciasportlight.com.br\/?p=337"},"modified":"2017-01-18T02:50:00","modified_gmt":"2017-01-18T04:50:00","slug":"e-por-falar-em-saudade-zico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/01\/18\/e-por-falar-em-saudade-zico\/","title":{"rendered":"E por falar em saudade: Zico"},"content":{"rendered":"<p>[dropcap]N[\/dropcap]unca fui afeito a simplifica\u00e7\u00f5es. Reducionismos. Pior: r\u00f3tulos. Normalmente eles escondem ignor\u00e2ncia. <\/p>\n<p>Nosso futebol \u00e9 emblem\u00e1tico nesse sentido. Rotula-se com a maior facilidade. A gera\u00e7\u00e3o atual recebeu todas as etiquetas poss\u00edveis at\u00e9 se chegar a classifica\u00e7\u00e3o mais razo\u00e1vel: faltava mesmo era um t\u00e9cnico com um m\u00ednimo de conhecimento t\u00e1tico e atualiza\u00e7\u00e3o, depois de seis anos com Dunga em duas passagens, Felip\u00e3o&#8230;At\u00e9 isso acontecer, foram \u201csem talento, fracos, amarel\u00f5es, psicologicamente fr\u00e1geis, sem comprometimento&#8230;\u201d e o que mais voc\u00ea imaginar. Muita gente boa inacreditavelmente embarcou nesse \u201csafra ruim\u201d ou no \u201csem comprometimento\u201d, que devia fazer t\u00e9cnicos estrangeiros morrerem de rir de nossas incompet\u00eancias.<\/p>\n<p>Houve um outro r\u00f3tulo que tentaram pespegar nessa gera\u00e7\u00e3o: de que eram um bando de inconsequentes, alienados do mundo e sem sentimentos por pessoas ou institui\u00e7\u00f5es. Que n\u00e3o tinham o menor respeito pelos que passaram e constru\u00edram a estrada antes deles. A aliena\u00e7\u00e3o eventual n\u00e3o \u00e9 um problema exclusivo deles. Os demais carimbos n\u00e3o se confirmam quando se conhece um ou outro ali e se pode travar algumas conversas.<br \/>\nConto um epis\u00f3dio pessoal para atestar o que falo. Trocava ideias com um dos grandes expoentes da gera\u00e7\u00e3o atual. Respeitado no mundo inteiro por seu talento, bem acima da m\u00e9dia. Um craque. E sou comedido para usar a palavra craque. Omito o nome por n\u00e3o ter autoriza\u00e7\u00e3o para tornar o papo p\u00fablico, embora seja edificante para o interlocutor, por mostrar exatamente tudo ao contr\u00e1rio do que muitas vezes classificam.<\/p>\n<p>O tal craque tinha enorme \u00e2nsia para saber sobre alguns jogadores do passado. Contou que procura muitas coisas no You Tube mas n\u00e3o acha coisas proporcionais ao que falam. Que s\u00e3o incr\u00edveis mas sabe que muito mais coisa aconteceu. Queria saber mais especificamente sobre Zico. Cresceu ouvindo o pai e o av\u00f4 falarem coisas inacredit\u00e1veis sobre o rubro-negro. Vivia procurando. Queria conversar, entender como era o estilo, o tamanho de Zico.<\/p>\n<p>Entre tantas perguntas que fazia, l\u00e1 pelas tantas soltou com a maior pureza da alma, em tom do maior elogio poss\u00edvel: \u201cEra tipo assim o Kak\u00e1? D\u00e1 pra falar que eram a mesma coisa?\u201d, afirmou, com o sarrafo que media Kak\u00e1 muito l\u00e1 em cima, porque afinal, cresceu vendo o meia sendo at\u00e9 o melhor do mundo. Portanto, se na cabe\u00e7a dele o par\u00e2metro era Kak\u00e1, \u00e9 porque tinha Zico, pelas hist\u00f3rias que ouvia, no mais alto conceito.<\/p>\n<p>Minha resposta n\u00e3o foi legal. Daquele tipo que depois voc\u00ea fica pensando: \u201cfui mal nessa, fui desnecessariamente grosseiro\u201d. E volta pra casa com aquilo na cabe\u00e7a. Mas foi sem maldade, juro. Porque ao ouvir a compara\u00e7\u00e3o, que tinha sido feita na maior pureza e na melhor das inten\u00e7\u00f5es, soltei uma sonora gargalhada e naquele tom horr\u00edvel de quem acha que o outro est\u00e1 falando a maior das ignor\u00e2ncias, soltei um \u201cvoc\u00ea t\u00e1 maluco\u201d. <\/p>\n<p>Refeito um pouco do susto e da resposta acima do tom para algu\u00e9m que conversava numa boa, tentei remendar um pouco e consertar. \u201cN\u00e3o h\u00e1 termos de compara\u00e7\u00e3o. Zico foi muito mais do que Kak\u00e1. Jogava muito mais, \u00e9 algo t\u00e3o despropositado que n\u00e3o d\u00e1 pra explicar\u201d. O craque estava meio pasmo com meu relato. E perguntava: \u201cQue isso, mais do que o Kak\u00e1 como voc\u00ea t\u00e1 falando? Muito mais? Tem certeza\u201d? Expliquei que a prateleira de Zico no futebol era aquela logo ali, abaixo do Pel\u00e9, no andar de Messi, Maradona&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 claro que tinha e creio que ningu\u00e9m que viu os dois jogarem tem qualquer d\u00favida. Mas n\u00e3o precisava ter falado daquele jeito. A d\u00favida era natural. Basta se botar no lugar. \u00c9 como eu perguntar para algu\u00e9m mais velho se Zizinho jogou mais do que o Renato Augusto. Claro que jogou e o mais velho ir\u00e1 ficar naturalmente perplexo. Mas minha d\u00favida \u00e9 razo\u00e1vel, diante da falta de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>[pullquote-left]Lembrar de Zico jogando me trouxe tanta coisa boa de volta.[\/pullquote-left]<\/p>\n<p>Tendo ao menos tentado amenizar minha inexplic\u00e1vel grosseria e mais do que isso, tendo trocado boas ideias e reminisc\u00eancias sobre Zico, diante de algu\u00e9m atento todo o tempo e com grande admira\u00e7\u00e3o, caio em profunda nostalgia logo depois da conversa. Muito mais do que isso: uma saudade imensa. Lembrar de Zico jogando me trouxe tanta coisa boa de volta. <\/p>\n<p>Lembran\u00e7as s\u00e3o assim. Puxa-se uma boa e outras tantas vem na esteira. E como muitos defendem e concordo, lembran\u00e7as assim nos tocam especialmente porque nos trazem dias que n\u00e3o voltam mais, trazem a imensa saudade da juventude. Trazem mais do que isso. S\u00f3 recorrendo a riqueza de poeta maior de Chico para descrever o que vem nessas mem\u00f3rias. Sintetizado no t\u00edtulo da can\u00e7\u00e3o, \u201cFlor da idade. \u201cAi, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor&#8230; Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor&#8230; Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor\u201d.<\/p>\n<p>E ali, naquele turbilh\u00e3o de mem\u00f3ria, do namoro no port\u00e3o do pr\u00e9dio, do doce de sonho de valsa que ela fazia, das descobertas, dos fins de tarde na praia, da resenha na pra\u00e7a quando n\u00e3o era preciso pensar nas contas, das primeiras lutas, do sonho em um dia ver um pouco mais de igualdade florescendo, de tanta coisa, naquele turbilh\u00e3o, as tardes de domingo vieram com tanta for\u00e7a&#8230;As tarde de domingo com Zico. As tardes de domingo de Zico. A alegria dividida com o pai que era maior quando era com gol de Zico, aquele grito compartido com o desconhecido no velho Maracan\u00e3&#8230;Aqueles 36 dias de 81&#8230;<\/p>\n<p>Sobre eles, um dia o grande jornalista Rodrigo Ara\u00fajo me contou que tudo tinha acontecido em 36 dias. Nunca tinha atentado para isso, nunca saiu da minha cabe\u00e7a. Pensava tanto num livro. O nome seria \u201cOs 36 melhores dias de nossas vidas\u201d. Eram os estertores daquela longa noite suja de 21 anos pela qual passamos, a noite dos fac\u00ednoras, e aqueles recitais de Zico pareciam anunciar um novo tempo, pareciam dizer que o sonho tava ali, chegando. Como sempre, fui postergando o livro. Queria tanto ter roubado a ideia do Rodrigo. Foi melhor n\u00e3o ter sido assim. A reportagem-document\u00e1rio que ele fez sobre esses 36 dias para o Esporte Espetacular foi uma das coisas mais emocionantes da TV brasileira nos \u00faltimos tempos. Que bom ter perdido essa.  <\/p>\n<p>Uma saudade que vem junto com a mem\u00f3ria do velho Maraca e do nojo por esse crime abjeto que cometeram e seguem cometendo. Mas vem com tanta coisa boa.<\/p>\n<p>A profiss\u00e3o de tantos dissabores mas de tanta coisa maravilhosa tem tamb\u00e9m dessas coisas: um dia poder falar ao \u00eddolo com mais intimidade sobre tudo aquilo da mem\u00f3ria. Por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, optei por manter-me longe dos personagens. Muito menos pelos manuais de \u00e9tica feito por homens de gel no cabelo que nunca fizeram uma mat\u00e9ria, e que de dia pregam \u00e9tica e de noite destro\u00e7am a nobreza do of\u00edcio, mas por op\u00e7\u00e3o de vida. Com Zico pude abrir m\u00e3o por alguns momentos. E dar feliz natal no dia 3 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Amante da poesia e da m\u00fasica, especialmente a brasileira, ainda que n\u00e3o consiga discernir um L\u00e1 de um D\u00f3, me emociono quase como numa antiga tarde de domingo com algumas can\u00e7\u00f5es, alguns versos. Tanta coisa bonita que temos&#8230;Uma gente que fez isso tudo h\u00e1 de cumprir esse destino de ser feliz. Nas noites de quinta, tenho mais esse privil\u00e9gio na vida, de estar no meio de alguns dos maiores m\u00fasicos desse pa\u00eds, sob a batuta de uma das mais belas figuras do mundo, Alfredinho, o Nen\u00e9m. E me emociono sempre com tanta poesia, tanto acorde bonito. Quando acaba tudo, fica sempre um petit-comit\u00e9 (acho que n\u00e3o era pra contar&#8230;) e cantamos as preferidas. \u201cEmbora o p\u00e3o seja caro e a liberdade pequena\u201d como disse o poeta, esse privil\u00e9gio me concede ouvir \u201cde gr\u00e1tis\u201d alguns monstros como o Tiago Prata, vulgo Pratinha, e o Maur\u00edcio Massunaga, parelha que roda alguma no mundo pode ter melhor no sete cordas, Manuela Oiticica, vulga Manu da Cu\u00edca marcando o ritmo, a Simone Franco cantando, o Cid Benjamin, figura \u00edmpar e imensa em nossa hist\u00f3ria, jornalista de m\u00e3o cheia mas que cisma em achar que pode tocar no meio das feras, tudo isso pra tr\u00eas ou quatro privilegiados. Sempre pe\u00e7o as coisas que mais gosto, as que mais me emocionam. <\/p>\n<p>Entre os versos de Pixinguinha, Chico, Aldir, Paulinho, Cartola, Noel, sempre me intimido um pouco para pedir e confessar o que mais me emociona. Mas um dia desses vou me encher de coragem e pedir: &#8220;Toca por favor: E agora como \u00e9 que eu fico nas tardes de domingo, sem Zico no Maracan\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>===================================================================================================================================================<\/p>\n<p>NOTA: esse texto, publicado aqui na \u00edntegra, foi feito originalmente para o livro &#8220;Zico, o Rei do Maracan\u00e3&#8221;, de Paulo S\u00e9rgio de Souza, que ser\u00e1 lan\u00e7ado pela Editora Datagol no pr\u00f3ximo dia 30, \u00e0s 19h, no Flamengo, com a presen\u00e7a de Zico. Um trabalho insano de pesquisa de Paulo S\u00e9rgio de Souza, com a ficha de todos os jogos que Zico jogou no Maracan\u00e3 e o gr\u00e1fico de 160 gols. A convite do autor, alguns jornalistas como eu, Mauro Cezar Pereira e Mauro Betting demos nossos testemunhos sobre Zico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca fui afeito a simplifica\u00e7\u00f5es. Reducionismos. Pior: r\u00f3tulos. 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