{"id":435,"date":"2017-02-23T04:00:57","date_gmt":"2017-02-23T07:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciasportlight.com.br\/?p=435"},"modified":"2017-02-23T03:57:58","modified_gmt":"2017-02-23T06:57:58","slug":"como-os-alquimistas-cabral-e-paes-transformaram-ouro-em-estrume","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/02\/23\/como-os-alquimistas-cabral-e-paes-transformaram-ouro-em-estrume\/","title":{"rendered":"Como os alquimistas Cabral e Paes transformaram ouro em estrume"},"content":{"rendered":"<p>[dropcap]N[\/dropcap]o tempo dos dinossauros, M\u00e1rio Lago passava boa parte da novela \u201cO Casar\u00e3o\u201d remexendo numa banheira de estrume. Em avan\u00e7ado est\u00e1gio de senilidade, dizia que aquilo ia virar ouro.<\/p>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, o Rio de Janeiro viveu processo oposto em rela\u00e7\u00e3o aos seus governantes. Tanto na cidade quanto no estado. Por onde tocaram, Cabral e Paes foram transformando ouro em merda, com o perd\u00e3o da m\u00e1 palavra. A alquimia muito peculiar do ex-governador agora j\u00e1 \u00e9 por demais conhecida. A do alcaide vai come\u00e7ar ainda a ser destampada. Vale sempre dizer que s\u00f3 fizeram o que fizeram porque a bafejar o milagre da transforma\u00e7\u00e3o esteve sempre ela: uma imprensa frouxa e c\u00famplice. A promiscuidade foi t\u00e3o grande que a hist\u00f3ria \u00e9 conhecida nos bastidores da imprensa carioca: na intimidade, os dois chegavam a gargalhar ao chamar ve\u00edculo t\u00e3o pr\u00f3ximo e t\u00e3o d\u00f3cil de &#8220;Di\u00e1rio Oficial&#8221;. Ou seja, eles mesmo riam do fato de ter algu\u00e9m de c\u00f3coras para os pr\u00f3prios. No caso, a imprensa amiga.<\/p>\n<p>Que, num processo criminoso, vendia nas primeiras p\u00e1ginas que, tal como o At\u00edlio da novela, a dupla do barulho transformava tudo em ouro. Um deles, j\u00e1 sabemos, de fato promovia tal milagre. Mas s\u00f3 para as contas dele. Do outro saberemos quando repetir a viagem de Eike, a sem igual rota Nova Iorque\/Bangu.<\/p>\n<p>Foi assim que destru\u00edram o Maracan\u00e3, sob aplausos de muitos que agora querem mostrar veem\u00eancia diante do escabroso fato. Foi assim que Paes iniciou um processo criminoso com o carnaval que se avizinha. Por neg\u00f3cios e pelos amigos do rei, mostrava que iria mais longe em entrevistas e declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Escrevi o texto abaixo, que agora republico, em dois de fevereiro de 2012, tamb\u00e9m \u00e0s portas da folia. Muitos dos temas foram, s\u00e3o e ser\u00e3o recorrentes em meu trabalho. Seja na parte de opini\u00e3o ou de reportagem desta trincheirinha. Lembro bem de v\u00e1rias reclama\u00e7\u00f5es quando voltava ao tema \u201cMaracan\u00e3\u201d naquele momento. Chatice, repetitivo, preso ao passado&#8230; O tempo se encarregou de mostrar o que sempre soube: as convic\u00e7\u00f5es est\u00e3o acima de eventuais testes e busca de popularidade. Seja l\u00e1 o pre\u00e7o que for para pagar. O que importa sempre \u00e9 dormir em paz, saber que ao menos tentou-se travar o bom combate, claro, aquele que voc\u00ea julga ser. E que entre os pecados, o da repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel. O da omiss\u00e3o \u00e9 crime.<\/p>\n<p>O carnaval, como est\u00e1 a\u00ed abaixo, segue sua resist\u00eancia, apesar dos estragos do prefeitinho, tal como o governador, um Midas ao contr\u00e1rio. A foto que ilustra aqui d\u00e1 a dimens\u00e3o do quanto se mercantilizou a festa das ruas. O texto abaixo, de 2012, quando se rascunhava isso, \u00e9 sobre isso.<\/p>\n<p>O Maracan\u00e3, como t\u00e3o bem definiu o grande rep\u00f3rter Pedro Motta Gueiros, ficou como \u201ca ferida que n\u00e3o fecha\u201d. Ao menos a maldi\u00e7\u00e3o ir\u00e1 persistir para todo o sempre \u00e0s gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es dos que cometeram um pecado t\u00e3o imenso. Feio desejar isso? Claro que sim. Gostaria de n\u00e3o ter tal sentimento. Mas por hora \u00e9 s\u00f3 o que tenho para quem fez tal monstruosidade. Que n\u00e3o se arvorem alguns. N\u00e3o falo em nenhum direito descumprido, como diz o estado democr\u00e1tico de direito. Todo direito de defesa e condi\u00e7\u00f5es de dignidade no longo c\u00e1rcere. A maldi\u00e7\u00e3o para eles se d\u00e1 at\u00e9 aqui dentro desses limites mas a maior se dar\u00e1 no plano metaf\u00edsico. Arrastar\u00e3o correntes como zumbis at\u00e9 o fim de suas exist\u00eancias. E de noite escutar\u00e3o o grito do Gerdau, aquele hist\u00f3rico geraldino que ecoava atr\u00e1s do banco: \u201cpra freeeente!\u201d<\/p>\n<p>Que o grito do Gerdau acompanhe essa canalha todas as madrugadas de Bangu e de onde estiverem. Nem todo tesouro amealhado vai valer aquele desassossego na madrugada: \u201cPra freeeente!\u201d<\/p>\n<p>Os tambores j\u00e1 chamam. \u00c9 carnaval. Fica aqui republicado aquele grito l\u00e1 de 2012. Bom carnaval para todos, com imensa gratid\u00e3o por todo o carinho com essa Ag\u00eancia Sportlight de Jornalismo Investigativo. Que soe como m\u00fasica para quem de direito, e que entre como zumbido insuport\u00e1vel para quem de direito tamb\u00e9m: \u201cPra freeeente!\u201d<\/p>\n<p><strong>Os vendilh\u00f5es do templo de Momo &#8211; como querem acabar com o carnaval carioca<\/strong><\/p>\n<p><em>Publicado em 2\/3\/2012<\/em><\/p>\n<p>Os invasores espanh\u00f3is, assim como outros colonizadores ao redor do mundo, mantiveram uma pr\u00e1tica s\u00f3rdida para conquistar os novos reinos: o massacre da cultura dos dominados, a humilha\u00e7\u00e3o e o desrespeito. A pr\u00e1tica deixava eternizada a marca de b\u00e1rbaros e esp\u00e9cie inferior entre os derrotados.<\/p>\n<p>Cholula, no M\u00e9xico, \u00e9 o s\u00edmbolo maior dessa pr\u00e1tica. No topo da pir\u00e2mide asteca, constru\u00edda ao Deus da Chuva, os espanh\u00f3is fizeram quest\u00e3o de erguer uma catedral, mostrando o desprezo que sentiam pela cultura nativa.<\/p>\n<p>Nos tempos atuais, nossos governantes n\u00e3o s\u00e3o muito diferentes. S\u00e9rgio Cabral est\u00e1 desde j\u00e1 eternizado na hist\u00f3ria como o homem que destruiu nossa pir\u00e2mide para erguer a catedral que vai de encontro aos interesses dos novos conquistadores, agora revestidos com escudo da Fifa (al\u00e9m de outros conquistadores, claro, n\u00e3o fosse ele t\u00e3o \u00edntimo de empreiteiros). A pir\u00e2mide onde cultu\u00e1vamos nossos deuses, onde o sagrado e o profano se misturavam na geral e na arquibancada num ritual que desconhecia ricos ou plebeus, dar\u00e1 lugar ao templo da cultura \u201csuperior, da ordem\u201d e do que eles consideram moderno. Assim como os colonizadores de outrora, obedecendo a uma mesma l\u00f3gica: eliminando os b\u00e1rbaros incultos, desdentados e pobres, seus cantos e s\u00edmbolos. O novo templo dever\u00e1 ser ass\u00e9ptico, como mandam os preceitos vindos dos sal\u00f5es europeus.<\/p>\n<p>Agora, com toda sinceridade, me diga: j\u00e1 n\u00e3o vimos esse filme ao longo dos tempos? Mais uma vez a hist\u00f3ria se repete como farsa. Tr\u00e1gica farsa. No topo de nossa pir\u00e2mide erguer\u00e3o suas catedrais. Durante duas semanas, receber\u00e3o subservientes os homens da Fifa, mostrando o qu\u00e3o obedientes s\u00e3o. E quando estes forem embora, far\u00e3o a festa, entregando o templo, privatizado e \u201chigienizado\u201d.<\/p>\n<p>Uma nova opera\u00e7\u00e3o perversa de massacre da nossa cultura e suas mais caras pir\u00e2mides, com seus ritos, f\u00e9 e devo\u00e7\u00e3o est\u00e1 em curso. No lugar de S\u00e9rgio Cabral, mas com ele tamb\u00e9m, o alcaide Eduardo Paes. Sorrateiramente, com pouco alarde, fez algo que ainda \u00e9 inacreditavelmente pouco falado, mas que pretende mudar a hist\u00f3ria de um dos nossos outros monumentos e pir\u00e2mides: o carnaval carioca. Assim como o outro fez com o Maracan\u00e3, o alcaide come\u00e7a a tentar destruir a festa que provavelmente vai mais fundo em nossa alma. Digo tentar porque, como j\u00e1 disse aqui outras vezes, desconhecem a hist\u00f3ria dessa gente de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, que n\u00e3o se rende e saber\u00e1 reinventar sua festa, longe dos gulosos tent\u00e1culos oficiais.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o foi simples e eis aqui o cerne da quest\u00e3o: entregou-se a festa popular, espont\u00e2nea e nativa para uma gigante marca de cerveja. Gigante mundial. \u00c9 prov\u00e1vel que muitos desavisados ainda n\u00e3o tenham se dado conta do que aconteceu a partir da\u00ed, e sigam se perguntando como vai se dando tamanha descaracteriza\u00e7\u00e3o da festa. (Aqui falo obviamente em grosso modo, porque a resist\u00eancia segue em locais, blocos e esquinas que se negam a entrar no novo templo, mantendo a chama que n\u00e3o se apaga).<\/p>\n<p>[pullquote-left]A descaracteriza\u00e7\u00e3o e o \u00f3bvio gigantismo que se seguiu \u00e9 f\u00e1cil de ser explicada: comercializada a rua, vendido o templo de momo, era preciso \u201cbombar\u201d. Era preciso o \u00f3bvio: aumentar a escala humana, aumentando o consumo[\/pullquote-left]<\/p>\n<p>A descaracteriza\u00e7\u00e3o e o \u00f3bvio gigantismo que se seguiu \u00e9 f\u00e1cil de ser explicada: comercializada a rua, vendido o templo de momo, era preciso \u201cbombar\u201d. Era preciso o \u00f3bvio: aumentar a escala humana, aumentando o consumo. A m\u00e1quina de propaganda entra em a\u00e7\u00e3o, todas as m\u00eddias, uma imensa e eficaz estrutura de assessoria jorrando em tempo real imagens e textos em todos os meios, locais e mundiais (aqui fala algu\u00e9m do meio, conhecedor da estrutura de divulga\u00e7\u00e3o que se montou, com alguns dos mais brilhantes profissionais de imagem e comunica\u00e7\u00e3o do mercado, pagos pela cervejaria).<\/p>\n<p>De ano pra ano desde ent\u00e3o, a escala passa a ser alucinante. Nem mesmo o \u201cCachorro Cansado\u201d de minha inf\u00e2ncia, que a molecada da rua ia desfilando atr\u00e1s s\u00f3 pra ir zombando do presidente, o Lobato Cabe\u00e7udo, chamando de \u201cCachorro Mortinho\u201d pra dar conta do tamanho \u00ednfimo daquele bloco de sujos escapa mais. Virou um bloco imenso, j\u00e1 que qualquer bloco virou um bloco imenso, pois para dar vaz\u00e3o a tanta gente, as hordas atra\u00eddas pela propaganda, qualquer coisa pulante pelas ruas vira uma multid\u00e3o. E tome azeitada m\u00e1quina de propaganda. Nem bem as primeiras batidas do repique soam, e as imagens j\u00e1 correm pelo mundo.<\/p>\n<p>C\u00ednicos, os mesmos vendilh\u00f5es que entregaram o carnaval para a cervejaria falam no aumento do carnaval de rua do Rio, sem entender a raz\u00e3o&#8230; Mais c\u00ednicos ainda, chegam ao limite da sordidez ao dizer que \u201cainda falta educa\u00e7\u00e3o ao povo\u201d, repetindo o discurso daqueles l\u00e1 de tr\u00e1s, que erguiam catedrais sobre as pir\u00e2mides alheias para mostrar a inferioridade e barb\u00e1rie dos nativos. Como se fosse uma quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o resolver uma equa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fecha jamais: comercializada e entregue a festa para a cervejaria, ela det\u00e9m a exclusividade de venda em todos os pontos. E para dar escala ao investimento, espalha milhares de vendedores, n\u00e3o importando nem mesmo se s\u00e3o menores ou coisa que o valha. A outra ponta n\u00e3o fecha, salvo que um dia inventem a cerveja n\u00e3o diur\u00e9tica: com oferta aos borbot\u00f5es, a cerveja do patrocinador oficial \u00e9 consumida tamb\u00e9m aos borbot\u00f5es por milhares. Que salvo a cidade transformada no maior dep\u00f3sito de banheiros da hist\u00f3ria da humanidade, obviamente n\u00e3o existir\u00e1 conta que feche entre a quantidade de cerveja consumida e a vontade de mijar.<\/p>\n<p>Como a escala \u00e9 incentivada e forjada oficialmente, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: dizer e propagar a ideia de que o povo n\u00e3o tem educa\u00e7\u00e3o. Assim falou o governador, o prefeito, o bucha do prefeito, um almofadinha que cuida do carnaval em sua secretaria.<\/p>\n<p>Talvez uma das melhores explica\u00e7\u00f5es para o incha\u00e7o recente dos blocos e do carnaval de rua carioca tenha vindo do secret\u00e1rio de turismo do Rio, Ant\u00f4nio Pedro Figueira de Mello, que segundo entrevista publicada no Globo de 24\/2, \u201ctem a miss\u00e3o de organizar o carnaval\u201d. Pois depois de botarem a culpa na educa\u00e7\u00e3o do povo para a perversa equa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se fecha, aquela da imensa escala de oferta da patrocinadora oficial x bexigas humanas, o tal sujeito, num racioc\u00ednio tortuoso que nem Odorico Paragua\u00e7u seria capaz, explica o tal incha\u00e7o recente: \u201cOs blocos sofreram um incha\u00e7o, tivemos mais de quatro milh\u00f5es nas ruas. At\u00e9 o \u201cVem ni mim\u201d, que era pequeno, reuniu 50 mil pessoas. O problema \u00e9 que ningu\u00e9m quer ir embora, mesmo depois da passagem dos blocos\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer a genialidade dessa gente! Os camaradas vendem a galinha dos ovos de ouro. Entregam para a cervejaria (adoraria saber mais desse contrato, como isso se deu, a licita\u00e7\u00e3o, a concorr\u00eancia e vou adorar acompanhar os doadores de campanha das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es&#8230;) o carnaval. A m\u00e1quina entra em a\u00e7\u00e3o. A escala atinge propor\u00e7\u00f5es colossais. E a\u00ed o sujeito se sai com essa, justifica tudo com essa p\u00e9rola da hist\u00f3ria do cinismo.<\/p>\n<p>Na mesma entrevista, a resposta mais objetiva \u00e9 para a pergunta \u201cAlguma chance de o patroc\u00ednio da Ambev ser revisto\u201d? Resposta: \u201cNenhuma chance, cerveja e carnaval tem tudo a ver\u201d!<\/p>\n<p>Mais um s\u00edmbolo que os novos arquitetos de Cholula v\u00e3o tentando matar. E para quem ainda defende a aberra\u00e7\u00e3o que vai sendo cometida com o pobre argumento do turismo, vale sempre a lembran\u00e7a de que nossa cultura, nossas tradi\u00e7\u00f5es e rituais ser\u00e3o sempre mais importantes do que os neg\u00f3cios com cervejarias. Como disse o historiador Luiz Ant\u00f4nio Simas, sempre citado aqui e sempre necess\u00e1rio, \u201ca ideia de se transformar o carnaval de rua em uma eterna micareta no balne\u00e1rio dos grandes eventos \u2013 e os consequentes dilemas que envolvem as rela\u00e7\u00f5es entre o poder p\u00fablico e as agremia\u00e7\u00f5es carnavalescas \u2013 envolve o risco de matar o foli\u00e3o espont\u00e2neo, comandante de uma armada de piratas, colombinas, \u00edndios, fara\u00f3s e \u00e1rabes que v\u00e3o se juntando sem trajeto definido, hor\u00e1rio de partida ou de chegada\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo a resist\u00eancia que j\u00e1 surge aqui e ali tem se mostrado equivocada. E tamb\u00e9m muitas vezes elitista, desrespeitosa com nossa cultura. Mais do que isso, olhando apenas para o pr\u00f3prio umbigo, ou para a pr\u00f3pria portaria do pr\u00e9dio, escolhe por olhar a \u00e1rvore no lugar da floresta. Como alguns moradores da zona sul, que tem protestado contra os blocos, o xixi de gente mal educada, sempre com o arremate de que \u201co bairro n\u00e3o comporta isso\u201d, fazendo lembrar relatos de cronistas de outrora, que relatavam que \u201cas elites se entrincheiravam no carnaval, por achar o Z\u00e9 Pereira neurastizante\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o sugerem que se transfiram o carnaval de rua para outro lugar. Sugest\u00f5es esdr\u00faxulas v\u00e3o surgindo, como levar todos os blocos para um lugar s\u00f3, esp\u00e9cie de samb\u00f3dromo dos blocos, algo como Riocentro, etc. O que, como disse Simas, transformaria em definitivo nosso carnaval em micareta. N\u00e3o que o pobre prefeitinho provavelmente n\u00e3o se encante com a ideia. At\u00e9 Preta Gil (!) entrou no calend\u00e1rio da festa, patrocinada, com trio que, imagine, nada lembra nosso carnaval. O primeiro ano do aberrante bloco trouxe embri\u00e3o do que queriam: um cord\u00e3o, tal qual na Bahia, com abad\u00e1s para Vips (!). O grito em S\u00e3o Sebasti\u00e3o contra ecoou t\u00e3o forte que arquivaram a ideia. Ainda tentar\u00e3o novamente.<\/p>\n<p>Alguns moradores do Leblon tem sido os mais pr\u00f3digos em protestos. Claro que n\u00e3o traduzem o esp\u00edrito de todos no bairro, local hist\u00f3rico de Ruy Castro, Jo\u00e3o Ubaldo, Apolonio de Carvalho (quer alma mais elevada?) e sim, de Monsueto (precisa dizer mais?) e outras tantas almas de rua, que n\u00e3o apoiariam ideias segregadoras. Um pulinho no magn\u00edfico desfile do bloco do Imp\u00e9rio da Cruzada, \u00fanico da \u00e1rea que resta fiel as tradi\u00e7\u00f5es e sem apoios maiores (n\u00e3o apoiariam a gente da Cruzada S\u00e3o Sebasti\u00e3o, n\u00e9?!) e veriam que o problema n\u00e3o s\u00e3o os blocos, e sim o que fizeram vendendo a festa. Ainda \u00e9 tempo de verem que o importante \u00e9 lutar contra essa mercantiliza\u00e7\u00e3o que agigantou e quebrou nossas tradi\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o contra a festa. Para n\u00e3o repetir os erros do passado, quando muitos moradores do Leblon apoiaram o crime b\u00e1rbaro que se cometeu contra os moradores da favela da Praia do Pinto, (que deu origem a essa mesma Cruzada). Um dos grandes crimes do Brasil no s\u00e9culo XX, cometido em nome da urbaniza\u00e7\u00e3o, um Pinheirinho com muito mais gravidade, aplaudido por muitos que provavelmente hoje preferem defender apenas \u201co nosso bairro\u201d no lugar de defender a tradi\u00e7\u00e3o e cultura de toda cidade, tradi\u00e7\u00e3o essa que tentam assassinar, gerando o monstro.<\/p>\n<p>O jogo ficou pe$ado. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para ingenuidade, reclamar da portaria, ser bobinho de retuitar a barbaridade do prefeito que humilha sua gente chamando de mal educada sem olhar para o todo. E o todo vai muito al\u00e9m do carnaval de rua do qual estamos falando. O neg\u00f3cio \u00e9 lucrativo demais para essa gente ter deixado fora de suas garras tanto tempo. Ser\u00e1 que algu\u00e9m n\u00e3o estranhou aquele discurso s\u00fabito pela moralidade no desfile das escolas de samba ao fim do carnaval? Prefeito e governador vociferando contra os bicheiros (agora mais enfraquecidos ainda), dizendo que \u201cera preciso profissionalizar\u201d?<\/p>\n<p>Uma r\u00e1pida leitura dos fatos como um todo vai aclarar:<br \/>\nNo dia 21 de fevereiro, o prefeito Eduardo Paes defendeu com veem\u00eancia e incr\u00edvel dose de agressividade a profissionaliza\u00e7\u00e3o do carnaval, dando como exemplos opostos S\u00e3o Clemente x Beija-Flor: \u201cReparem a S\u00e3o Clemente. \u00c9 um exemplo de como os recursos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das escolas de samba permitem um grande carnaval. Precisa de gest\u00e3o profissional, precisa de gente s\u00e9ria. Voc\u00ea est\u00e1 vendo esta escola? Entrou um cara, um superprodutor, o Calainho, que est\u00e1 fazendo um carnaval que est\u00e1 deixando a Beija-Flor com vergonha. Ent\u00e3o, mostra que d\u00e1 para fazer muita coisa com aquilo que \u00e9 disponibilizado \u00e0s escolas. A gest\u00e3o profissional \u00e9 a transpar\u00eancia de recursos que s\u00e3o aplicados de fato no desfile\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo dia, o jornal O Dia publicava nota dando conta da rela\u00e7\u00e3o entre Calainho\/prefeito\/carnaval:<\/p>\n<p>\u201cBailes Caros: O patroc\u00ednio aos Bailes do Rio custou R$ 2,950 milh\u00f5es ao carioca. O dinheiro foi pago pela RioTur \u00e0 L21 Participa\u00e7\u00f5es, do empres\u00e1rio Luiz Calainho. Os eventos, entre eles o Baile da Cidade e o Grande Baile Gay, s\u00e3o no Jockey Club. Para entrar, o contribuinte paga entre R$ 100 e R$ 500 reais.<\/p>\n<p>Vale ligar as falas, compondo o campo de an\u00e1lise do cen\u00e1rio para entendermos o que vem por a\u00ed num carnaval que, anotem, come\u00e7a nova era nos desfiles, saindo das m\u00e3os n\u00e3o gloriosas dos contraventores e pulando para os amigos dos reis Paes, Cabral, (daqui a pouco o A\u00e9cio pinta nesse bloco&#8230;). Tem d\u00favida? Feche o ciclo com a entrevista do dia 24 de fevereiro, no Globo, do mesmo Calainho: \u201cO desfile do Rio tem condi\u00e7\u00e3o de se transformar numa franquia internacional, como \u00e9 o Cirque du Soleil\u201d.<\/p>\n<p>Jamais iria achar bom que bicheiros, entre eles homens como Capit\u00e3o Guimar\u00e3es, que consta da lista de torturadores do \u201cBrasil Nunca Mais\u201d sejam os donos dessa festa. Mas \u00e9 preciso aten\u00e7\u00e3o a essa transfer\u00eancia que se encaminha, o que ir\u00e3o fazer de nossa cultura. N\u00e3o apenas isso, lembrando o imenso potencial do carnaval como lavanderia de dinheiro para pol\u00edticos, empres\u00e1rios-laranjas, picaretas em geral, como j\u00e1 foi para bicheiros.<\/p>\n<p>O movimento est\u00e1 em curso. Sorrateiro, com discurso que procura humilhar a cultura que fez \u201cdessa quizomba nossa constitui\u00e7\u00e3o\u201d. Para enfim transformar, quem diria, (s\u00f3 rindo para n\u00e3o chorar de raiva e incredulidade como algu\u00e9m pode falar uma coisa assim!), nosso carnaval em \u201cuma franquia internacional, como \u00e9 o Cirque du Soleil\u201d.<\/p>\n<p>Por sorte, somos de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, que sempre olha por n\u00f3s. Somos uma gente do lugar que se negou a acatar a ordem dos que queriam transformar o Rio na Paris dos tr\u00f3picos. Por isso seguimos e chegamos at\u00e9 aqui. Se quiserem, batam nosso tambor negro no r\u00e9veillon, porque n\u00f3s come\u00e7amos isso sem apoio oficial, sem \u201cprofissionaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Se quiser, pe\u00e7a uma brecha na nossa festa no Maraca, n\u00f3s que inventamos o jogo do jeito que ele ficou. N\u00f3s descemos o Est\u00e1cio, a Pra\u00e7a Onze e a Rio Branco com nossa quizomba certamente n\u00e3o para entregar a um grupo de almofadinhas que sonha com os cifr\u00f5es ao transformar o carnaval de rua em micareta e os desfiles em franquia do Cirque du Soleil.<\/p>\n<p>N\u00e3o ir\u00e3o erguer suas podres catedrais em nossas pir\u00e2mides. N\u00e3o passar\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No tempo dos dinossauros, M\u00e1rio Lago passa boa parte da novela \u201cO Casar\u00e3o\u201d remexendo numa banheira de estrume. Em avan\u00e7ado est\u00e1gio de senilidade, dizia que aquilo ia virar ouro.<\/p>\n<a href=\"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/02\/23\/como-os-alquimistas-cabral-e-paes-transformaram-ouro-em-estrume\/\">Leia mais -><\/a>.","protected":false},"author":1,"featured_media":436,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"nf_dc_page":"","om_disable_all_campaigns":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[42,33,15,43,32],"class_list":["post-435","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-carnaval","tag-eduardo-paes","tag-maracana","tag-rio-de-janeiro","tag-sergio-cabral","post_format-post-format-image"],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p8bYvK-71","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/agenciasportlight.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/monobloco.jpg?fit=620%2C465&ssl=1","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=435"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":444,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435\/revisions\/444"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/436"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}