Cláudio Castro declarou R$ 478,8 mil gastos do fundo eleitoral em compra de combustível com fantasma cuja ex-mulher foi nomeada em setor estratégico

Utilizando o fundo eleitoral, Cláudio Castro declarou compra de combustível suficiente para ir até a lua duas vezes na campanha que o reconduziu ao Palácio Guanabara. Os R$ 478,8 mil declarados na prestação de contas para comprar 68,4 mil litros de óleo S10 de uso na frota empregada no pleito, foram distribuídos em 12 diferentes postos. Desses 12 estabelecimentos, 10 fazem parte ou tem conexão com a rede de Fernando Trabach Gomes, preso na “Operação Mercado de Ilusões” em 2016 e no ano seguinte na “Operação Caça Fantasma”. Desiree Silva de Oliveira, ex-mulher e que consta como sócia em alguns postos do grupo, foi nomeada, (e já exonerada) na gestão Cláudio Castro para cargo em comissão de auxiliar de gabinete, do Departamento de Recursos Minerais (DRM-RJ), que tem, entre outras, a função de “controlar as atividades ligadas a economia mineral e do petróleo”, além do acesso, previsto em lei, a todas as “informações econômico e fiscais do setor mineral e do petróleo junto a secretaria de estado de fazenda”.
Questionado pela reportagem sobre a escolha de 10 entre 12 postos (ver relação e respectivos sócios abaixo) identificados como do empresário envolvido em escândalos anteriores justamente por emitir notas fiscais sem comprovação de serviço prestado, a campanha do governador Cláudio Castro afirmou que “a escolha dos postos de gasolina para abastecimento dos veículos levou em consideração a logística planejada para o deslocamento das equipes de mobilização”. O estado do Rio de Janeiro tem, de acordo com os dados mais recentes disponíveis pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), 2.125 postos de combustível. Entre todas essas opções, a logística da campanha escolheu 10 dos 12 estabelecimentos ligados ao empresário Fernando Trabach.
Fernando Trabach era o rosto por trás do fantasma George Augusto Pereira da Silva, nome e CPF fictícios para assinar contratos com governos municipais do estado do Rio e cometer crimes licitatórios e contra a ordem tributária.
Preso na “Operação Caça Fantasma”, de 2017, foi apontado como o líder da foi apontado como líder de organização criminosa.

De acordo com a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) que desencadeou a prisão, os diversos negócios de Trabach com uso de documento falso, privados ou junto à administração pública, foram praticados desde 2006. Um dos maiores contratantes foi o município de Campos, norte do estado do Rio, que usou o fantasma para locar ambulâncias por valores que chegaram a R$ 17,3 milhões durante a gestão de Rosinha Garotinho. A investigação cita inclusive um pregão presencial vencido por George Augusto Pereira da Silva. O fantasma usava a GAP Comércio e Serviços Especiais para as transações com a prefeitura de Campos.
Também foram encontrados contratos feitos em nome da identidade fantasma com a prefeitura de Duque de Caxias, assembleia legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) e polícia civil do estado.
No ano anterior, 2016, Fernando Trabach Gomes já tinha sido preso por outra fraude, ao vender unidades imobiliárias que não existiam. Junto com o filho, Fernando Trabach Gomes Filho, formou, de acordo com o MPRJ, uma “organização criminosa” para praticar crimes de lavagem de dinheiro e estelionato. Em 2017, o filho também foi preso ao visitar o pai na cadeia, sob denúncia de organização criminosa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
Na fraude que resultou na “Operação Mercador de Ilusões”, empreendimentos hoteleiros a serem construídos no estado do Rio eram lançados em grande estilo. De acordo com o MPRJ, os líderes dessa organização criminosa “realizaram pomposos eventos para o lançamento do empreendimento ao público, com ampla divulgação na imprensa, dando início à comercialização de centenas de unidades imobiliárias”. Segundo o MPRJ, na ocasião o grupo lucrou R$ 16,7 milhões, com pagamentos realizados por consumidores interessados em comprar unidades do prometido empreendimento. Depois de entrar na conta, era iniciado um processo de lavagem de dinheiro. Os empreendimentos não existiam. Na ocasião, a defesa dos empresários contestou a prisão e alegou que os lançamentos não foram adiante “em razão da grave crise econômica”.
Entre as operações suspeitas de lavagem de capitais, a investigação encontrou um recibo da escola de samba Grande Rio no valor de R$ 400 mil. A agremiação apresentou defesa afirmando que o comprovante era relativo a um patrocínio por parte do empresário.
A declaração de gastos nos 12 postos apontam como sido realizados em 15 de agosto. Em cada um dos 12 estabelecimentos que a campanha de Cláudio Castro utilizou, foram comprados 5.700 litros a R$ 7, com total de R$ 39,9 mil por posto. Através da assessoria de imprensa, a campanha do governador alega que “a despesa total com combustíveis, de todos os veículos utilizados na campanha do governador eleito Cláudio Castro, foi de R$ 307 mil. O valor de R$ 478 mil se refere a estimativas de gastos, cujos contratos foram readequados”. (ver íntegra abaixo).
Considerando o consumo médio de 10 km por litro, numa compra de 68,4 mil litros, a população do estado pagou o suficiente para 680,4 mil quilômetros. Como a distância entre a terra e a lua é de 384.4 mil km, é quase suficiente para duas idas até a lua.
RELAÇÃO DOS 12 POSTOS PAGOS COM FUNDO ELEITORAL POR CLÁUDIO CASTRO E RESPECTIVOS SÓCIOS

O Auto Posto e Serviço MJM de Maricá consta na Receita Federal em nome de: Luis Fernando De Oliveira Trabach Gomes.

O Posto Brilhante do Pilar consta na Receita Federal em nome de: Fernando Trabach Gomes.


O Posto Sergo consta na Receita Federal em nome de: Fernando Trabach Gomes

O Posto Novo Recreio consta na Receita Federal em nome de: Luis Fernando De Oliveira Trabach Gomes

O Posto Manda Brasa consta na Receita Federal em nome de: Luis Fernando De Oliveira Trabach Gomes


O Posto Vila Salutaris consta na Receita Federal em nome de: Jack Trabach Gomes e Juliana Rangel Gomes

O Posto JRH Vitória consta na Receita Federal em nome de: RVM Participações Societárias ltda e Renato Vicente Medeiros. Nota da reportagem: Renato Vicente Medeiros, embora conste como sócio de um posto de gasolina, aparece nomeado em cargo temporário na prefeitura de Duque de Caxias em julho de 2015, no cargo de “cuidador”, e salário de R$ 1.386,00. Em 2018, o Tribunal de Contas do Estado (TCE), anulou a contratação dele e de outras pessoas na mesma situação por considerar que “contratações temporárias realizadas no período abrangido pela referida auditoria em razão da não comprovação da necessidade temporária de excepcional interesse público”.

O Posto Mamanguá consta na Receita Federal em nome de: Fernando Trabach Gomes, 5F’S Participações Societárias e RPP Participações Societárias


O Posto São Conrado consta na Receita Federal em nome de:
Fernando Trabach Gomes e RPP Participações Societárias

O Posto Foz de Iguassu consta na Receita Federal em nome de: Rodrigo Ramos Pinto e Cecília Daiana Fontoura da Cunha

O Posto Nova Free consta na Receita Federal em nome de: Fernando Trabach Gomes e 5F’S Participações Societárias


O Posto Alegas do Caju consta na Receita Federal em nome de: Elis da Rocha Ramos. Nota da reportagem: Elis da Rocha Ramos se conecta a Fernando Trabach em relações societárias no Posto Abastecimento de Combustíveis e Serviços Shambala ltda. O mesmo tem como sócio o Centro Automotivo de Abastecimento Nº 1 de Itaboraí ltda, cujas sócias são Desiree Silva de Oliveira, ex-mulher de Fernando Trabach Gomes, já citada na reportagem, e Jacira Trabach, mãe do empresário. Elis da Rocha Ramos também consta como sócia de Henrique Itamar Schmidt, na Rede Nova 2000 Comércio de GNV e Serviços ltda. Henrique Itamar foi apontado pelo MPRJ como laranja de Fernando Trabach e frentista de um posto por ocasião da “Operação Caça Fantasma”. Elis da Rocha Ramos também foi denunciada na mesma operação. Por ocasião das investigações, Fernando Trabach fez transação constando a venda da GAP Comércio e Serviços Especiais, que estava em nome do fantasma George Augusto Pereira da Silva para a própria mãe e para Henrique Itamar Schmidt.
Outro Lado:
Cláudio Castro:
A reportagem enviou para a campanha do governador Cláudio Castro questões sobre a escolha dos postos, a quantidade de combustível e sobre a escolha prioritária dos estabelecimentos do empresário Fernando Trabach. A campanha, através da assessoria de imprensa, respondeu:
A Coligação Rio Unido e Mais Forte esclarece que a despesa total com combustíveis, de todos os veículos utilizados na campanha do governador eleito Cláudio Castro, foi de R$ 307 mil. O valor de R$ 478 mil se refere a estimativas de gastos, cujos contratos foram readequados. Vale ressaltar ainda que os valores serão apresentados na prestação de contas final da campanha. A escolha dos postos de gasolina para abastecimento dos veículos levou em consideração a logística planejada para o deslocamento das equipes de mobilização. Em relação à Desiree Silva de Oliveira, ela não é servidora do Estado. Foi exonerada do cargo em junho de 2021, dois meses após a sua nomeação.
Fernando Trabach Gomes:
A reportagem não conseguiu contato. Em caso de resposta, será atualizado aqui.
Desiree Silva de Oliveira:
A reportagem não conseguiu contato. Em caso de resposta, será atualizado aqui.